Sim, dá para rastrear. Bitcoin e USDT circulam em blockchains públicas, em que cada transferência fica registrada para sempre, com origem, destino, valor e hora. O perito em criptomoedas segue esse caminho carteira a carteira — nas redes Bitcoin, TRON, Ethereum e BNB Smart Chain — até o ponto em que o valor chega a uma corretora, onde alguém precisou se identificar. O laudo documenta cada salto de forma reproduzível e dá ao advogado o endereço certo para o pedido judicial de identificação e de bloqueio.
A blockchain funciona como um livro-caixa público. Ninguém vê o nome do dono de cada carteira, mas todos veem cada lançamento — e nada pode ser apagado depois. Por isso se diz que as criptomoedas são pseudônimas, não anônimas: é como uma conta bancária cujo extrato fica pendurado na praça, identificada só por um número.
O trabalho da perícia é ligar esse número a uma pessoa. Em algum momento o valor desviado precisa voltar a ser real, dólar ou bem de consumo, e isso acontece quase sempre em corretoras (exchanges) e serviços de pagamento que exigem cadastro. A trilha na blockchain é o fio; a corretora é onde o fio termina em alguém.
No Brasil, as prestadoras de serviços de ativos virtuais são disciplinadas pela Lei nº 14.478/2022 e, desde fevereiro de 2026, dependem de autorização do Banco Central (Resoluções BCB nº 519, 520 e 521/2025). Para quem foi lesado, isso significa um destinatário identificável para a ordem judicial que pede dados de cadastro, registros e bloqueio de saldo.
Plataforma que mostrava lucros, «robô de trading», gestor que sumiu com o saldo. O rastreamento parte dos seus envios e chega às carteiras que receberam e às corretoras de saída.
USDT ou Bitcoin pagos por produto, serviço ou negociação direta entre pessoas (P2P) que nunca foi entregue.
A vítima é convencida, ao longo de semanas, a «investir» ou a transferir para «proteger» o saldo. O caminho do dinheiro é o mesmo e se rastreia do mesmo modo.
Quando a falha foi da plataforma que guardava as chaves, o laudo reconstrói o que saiu, quando e para onde. O STJ reconheceu a responsabilidade objetiva da corretora por fraudes em transações de clientes (REsp 2.104.122/MG).
Localização de carteiras, saldo em data de referência e prova de quem tem o controle efetivo das chaves, para dividir ou penhorar o que de fato existe.
Ter o endereço de uma carteira não prova que se controla o que há nela. O perito examina se a imputação se sustenta tecnicamente.
Você envia o que tem: comprovantes, histórico da corretora, endereços de destino, conversas. Em uma consulta, o perito confirma a rede, a viabilidade e o tamanho do trabalho — antes de qualquer laudo.
Registros da corretora de origem, telas da plataforma falsa e conversas são preservados com hash. A blockchain não esquece; corretoras, provedores e sites falsos, sim.
Cada saída é seguida: divisões, reagrupamentos, trocas de moeda e pontes entre redes. Endereços controlados pela mesma pessoa são agrupados por padrões técnicos de uso.
Identificação dos endereços que pertencem a corretoras, serviços de pagamento ou emissores de stablecoins — os pontos onde existe cadastro de pessoa real.
Diagrama do fluxo, tabela de transações com identificador completo, data e hora em UTC, valores em cripto e em reais na data de cada envio, e as ressalvas. Outro perito refaz cada consulta e chega ao mesmo resultado.
O laudo indica a qual corretora ou emissor dirigir a ordem e que dados pedir. Se houver perícia no processo, atuação como assistente técnico.
O USDT (Tether) é uma moeda digital atrelada ao dólar emitida em várias blockchains ao mesmo tempo. O nome é o mesmo; o trilho, não. Um USDT enviado pela rede TRON nunca aparece no explorador da Ethereum, e vice-versa. Por isso a primeira pergunta do perito é sempre a mesma: por qual rede o valor foi enviado?
| Rede | Como funciona | O que o rastreamento observa |
|---|---|---|
| Bitcoin (BTC) | Os valores circulam como «moedas» que se juntam e se dividem a cada transação, com troco que volta ao remetente. | Como as entradas são gastas juntas e para onde vai o troco — padrões que revelam carteiras do mesmo dono. |
| TRON (USDT TRC-20) | Taxa baixa e confirmação rápida; muito usada para movimentar USDT, inclusive em golpes. Endereços começam com «T». | Transferências do token USDT entre endereços, saques para corretoras e conversões para outras moedas. |
| Ethereum (USDT ERC-20) | Rede de contratos inteligentes, com trocas em corretoras descentralizadas e pontes para outras redes. Endereços começam com «0x». | Trocas de token, interações com contratos e passagens por pontes (bridges) e serviços de mistura. |
| BNB Smart Chain (USDT BEP-20) | Compatível com a Ethereum e com taxas menores. Os endereços também começam com «0x». | Os mesmos padrões da Ethereum — e a confirmação da rede, porque o mesmo endereço pode existir nas duas. |
Quando o valor troca de moeda ou salta de uma rede para outra, o rastreamento acompanha a conversão e continua do outro lado. Serviços de mistura (mixers) e moedas de privacidade dificultam o caminho; o laudo registra onde a trilha se torna incerta e por quê — e o próprio uso de um mixer é informação relevante, porque mostra intenção de ocultar.
A urgência é processual, não técnica. A trilha na blockchain dura para sempre, mas o saldo pode sair da corretora em minutos, e os registros de acesso têm prazo de guarda (Marco Civil da Internet, arts. 15 e 22). Quanto antes o pedido chega, mais coisa ainda está lá.
Golpes de recuperação são comuns: alguém se apresenta como hacker ou «rastreador» e cobra adiantado, muitas vezes em cripto, para «resgatar» o valor. Rastreamento sério não pede que você envie dinheiro a um endereço desconhecido nem promete devolução. Quem devolve é a ordem judicial cumprida pela corretora ou pelo emissor; o perito entrega a prova que fundamenta o pedido.
Referências: Lei nº 14.478/2022 · Código Penal, art. 171, § 2º-A (Lei nº 14.155/2021) · Lei nº 9.613/1998 · Lei nº 12.965/2014, arts. 10, 15 e 22 · CPP, arts. 158-A a 158-F · NIST SP 800-86
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