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Criptoativos e blockchain

Tokens «bloqueados» estão mesmo bloqueados? Como se verifica um lock-up na blockchain

Verifica-se lendo o contrato que guarda os tokens, e não o anúncio. São quatro conferências: o saldo travado corresponde ao número anunciado; o calendário de liberação gravado no código é o prometido; os tokens vieram mesmo de quem diz tê-los bloqueado; e, a mais esquecida, ninguém tem uma chave capaz de desfazer o bloqueio antes do prazo. As três primeiras costumam conferir. É na quarta que mora a diferença entre um cofre e uma promessa.

Por Rodrigo Gaspar, perito em computação forense 6 min de leitura

O que é um lock-up, sem jargão

Quando um projeto lança um token, uma parte grande da emissão fica com quem o criou: fundadores, equipe, investidores iniciais, empresas que forneceram a tecnologia. O mercado sabe disso e tem um medo razoável: que essas pessoas vendam tudo de uma vez e derrubem o preço.

O lock-up é a resposta a esse medo. Os detentores se comprometem a não movimentar os tokens por um período e a recebê-los aos poucos, em parcelas. Pense em um cofre com fechadura de tempo, como os de banco: mesmo quem tem a chave só abre na hora programada.

Na blockchain, esse cofre é um contrato inteligente. Os tokens são enviados a ele, e o código só os libera nas datas gravadas. O anúncio de um bloqueio assim costuma ser notícia boa para o projeto, e o preço reage a ele.

Por que o anúncio não basta

O anúncio é um texto. O bloqueio é um programa. Os dois podem dizer coisas diferentes, por erro ou por conveniência, e o que vale é o programa.

A vantagem da blockchain é que o programa está à vista de todos. Qualquer pessoa pode ler o contrato, o saldo e o histórico. A dificuldade é que quase ninguém lê, e quem lê costuma parar no saldo.

As quatro conferências

1 · O saldo. O contrato de bloqueio guarda a quantidade anunciada? Algo já foi sacado ou destruído? A leitura é feita em um bloco de referência, com data e hora, para que outra pessoa possa repetir e chegar ao mesmo número.

2 · O calendário. As datas e os valores de cada liberação estão gravados no contrato? Batem com o cronograma divulgado? Quem é o beneficiário de cada parcela?

3 · A origem. Os tokens bloqueados vieram mesmo de quem diz tê-los bloqueado? Aqui se refaz o caminho para trás, transferência por transferência, até a carteira de tesouraria ou a emissão original. Quando os tokens passaram de uma rede para outra, cada travessia deixa um identificador que aparece igual nas duas pontas, e é por ele que se confirma que o que saiu de um lado é o que chegou do outro.

4 · As chaves. Esta é a conferência que decide. Três perguntas:

  • O contrato de bloqueio tem funções de administração? Alguém pode cancelar o cronograma, destruir o saldo, trocar o beneficiário?
  • O contrato de bloqueio, ou o próprio token, é atualizável? Se for, quem pode trocar as regras?
  • Essas permissões estão com uma chave só ou com um arranjo que exige várias assinaturas?
O anúncio dizO que se confereO que pode aparecer
«Bloqueamos X tokens»Saldo do contrato no bloco de referênciaSaldo menor, ou parte já sacada
«Por tantos anos, em parcelas»Calendário gravado no códigoDatas ou valores diferentes dos divulgados
«São os tokens da equipe»Caminho dos tokens até a origemTokens vindos de outra carteira
«O bloqueio é irreversível»Funções de administração e de atualizaçãoUma chave capaz de desfazer tudo

A pergunta que quase ninguém faz: quem pode desfazer?

Um cofre com fechadura de tempo protege contra quem está do lado de fora. Não protege contra o dono do banco, se ele tiver uma segunda porta.

Em contratos de bloqueio, essa segunda porta costuma ter nomes inofensivos: administrador, proprietário, função de emergência. Ela existe por bons motivos, como corrigir um erro ou reagir a um ataque. Mas, se a função permite destruir ou redirecionar o saldo, e se está nas mãos de uma única chave, o bloqueio dura enquanto o detentor dessa chave quiser, ou enquanto ela não for roubada.

O mesmo vale um andar abaixo. O contrato de bloqueio pode ser rígido, sem atualização possível, e o token que ele guarda pode ser atualizável. Quem controla a atualização do token controla o que «ter um token» significa.

Nada disso é irregular por si. É informação que quem investe, lista ou regula precisa ter, e que o anúncio raramente traz.

O que a verificação prova, e o que não prova

AfirmaçãoA verificação técnica sustenta?
O contrato guarda a quantidade anunciada no bloco de referênciaSim
O calendário gravado é o divulgadoSim
Os tokens vieram da origem declaradaSim, pelo histórico público
Ninguém pode desfazer o bloqueioDepende das permissões encontradas, e o laudo as lista
Quem tem a chave não vai usá-laNão: intenção não se lê no código
A situação é a mesma amanhãNão: é um retrato, e precisa ser renovado

Por que a verificação precisa ser repetida

Um contrato inteligente não avisa quando muda de mãos. Uma nova permissão concedida, um administrador acrescentado, uma atualização do token ou um saque parcial deixam registro público, mas ninguém recebe um aviso. Quem verificou em janeiro e não olhou mais não sabe o que vale em junho.

Por isso a prova de bloqueio funciona como a prova de reservas: um laudo inicial, completo, e renovações periódicas, mais curtas, que conferem o que mudou desde a última leitura. O documento sai assinado com certificado digital e carimbo do tempo, com o bloco de referência de cada apuração.

Quem precisa disso

  • O projeto que bloqueou, para transformar «nós garantimos» em «confira».
  • Investidores e fundos, antes de entrar, como parte da diligência.
  • Plataformas que listam o token, que respondem perante seus clientes pelo que oferecem.
  • Conselhos e comitês, que precisam saber quem tem as chaves dentro da própria casa.
  • Advogados, quando há disputa sobre o descumprimento de um bloqueio prometido.

Onde entra o perito

Este artigo mostra as quatro conferências. Fazê-las em um contrato real exige ler o código implantado, decodificar permissões, seguir tokens entre redes e registrar tudo de forma que outro profissional repita e chegue ao mesmo resultado. É o perito criminal responsável pelo caso que executa a verificação, declara o que encontrou e o que ficou fora do alcance, assina o laudo e o renova nos intervalos combinados.

Para quem emite, é o documento que sustenta o anúncio. Para quem investe, é a leitura que o anúncio não traz. O ponto de partida é o mesmo de qualquer perícia em contratos inteligentes: o que vale é o que está gravado.

Normas e referências citadas
Perguntas frequentes

Dúvidas comuns sobre o tema

O que é lock-up de tokens?
É o compromisso de não vender nem movimentar determinada quantidade de tokens por um período. Costuma ser assumido por fundadores, equipe, investidores iniciais e fornecedores de tecnologia, para dar ao mercado a segurança de que não haverá uma venda em massa. Pode ser feito por contrato inteligente, que trava os tokens e os libera em datas programadas.
Se o saldo está no contrato de bloqueio, não está tudo certo?
Não basta. O saldo mostra que os tokens estão lá hoje. Falta saber quem tem poder sobre o contrato: se existe função de administração capaz de cancelar, queimar ou redirecionar os tokens, e quem controla as chaves que acionam essa função.
O que muda se o token for atualizável?
Muda muito. Se as regras do próprio token podem ser trocadas por quem detém a chave de atualização, o bloqueio depende também dessa chave. Um contrato de bloqueio rígido sobre um token flexível é um cofre sólido em um prédio cujo dono pode mudar as paredes de lugar.
A verificação vale para sempre?
Vale para o instante em que foi feita: é um retrato em um bloco de referência. Uma nova permissão concedida, uma atualização ou um saque posterior mudam a conclusão. Por isso a verificação séria é repetida em intervalos regulares.
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Autor
Rodrigo Gaspar
Perito em Computação Forense — pericia.digital

Perito em computação forense e assistente técnico em processos judiciais. Sete anos como perito oficial criminal no Paraná; mais de 400 laudos. Formação em Sistemas de Informação (UNIPAR) e Direito (PUCPR); especialista em Gestão de Projetos, em Gestão e Segurança Pública e em Ministério Público e Estado Democrático de Direito. Sobre o perito · LinkedIn